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Montanha-russa financeira
Entenda o porquê do sobe e desce da bolsa

Até julho do ano passado, a economia mundial atravessava seu momento mais próspero dos últimos trinta anos. No entanto, uma crise num setor específico dos Estados Unidos – o imobiliário – fez com que as bolsas dos quatro cantos do planeta, que até então vinham batendo recordes históricos de alta, passassem a agir com grande volatilidade. O que explica essa montanha-russa financeira?

Toda a instabilidade teve início com a crise do chamado subprime americano –hipoteca de imóveis de segunda linha, conferida a pessoas com capacidade de pagamento bastante duvidosa. Assim que os juros americanos subiram minimamente e os credores perceberam que não conseguiriam mais arcar com as parcelas mensais da dívida, o mercado entrou em colapso. É difícil crer que isso seja possível quando, geralmente, qualquer risco de inadimplência é calculado e repassado ao próprio credor. Mas o subprime, assim como as chamadas “empresas pontocom”, transformou-se rapidamente em uma grande “bolha”.

Origem do subprime
Os bancos americanos enxergaram uma ótima oportunidade de lucro no empréstimo para a aquisição ou no refinanciamento de imóveis por pessoas físicas. Isso porque, ao mesmo tempo em que liberavam as cartas de crédito, eles lançavam títulos de dívida com alta remuneração – algo tentador para os fundos de investimento, principalmente os mais agressivos, que vivem de assumir altos riscos em nome de grandes retornos. A estratégia, chamada de “securitização”, não só livrava os bancos das perdas com possíveis calotes como também diluía o prejuízo, já que esses papéis eram negociáveis, ou seja, poderiam ser repassados a terceiros e assim por diante. Rapidamente, todo o mercado, não só o americano, foi “infectado” por papéis vinculados ao subprime – afinal, em uma economia fortemente globalizada como a atual, é impossível prever o alcance de cada ativo.

Excesso de otimismo
Estimulados pela boa aceitação tanto dos empréstimos quanto dos títulos, os bancos passaram a querer mais. E não foi difícil encontrar candidatos ao crédito. Com os juros baixos, os americanos acharam um bom negócio “receber uma bolada” à vista (e gastar como bem entendessem) em troca de prestações mensais compatíveis com seus salários. A grande oferta de crédito, por sua vez, fazia o preço dos imóveis dispararem, estimulando ainda mais procura pela hipoteca. Não por acaso, a primeira fonte de enriquecimento patrimonial das famílias americanas passou a ser a compra e a revenda de suas próprias residências.

O mecanismo das “bolhas” é justamente esse: manter em alta o mercado e a ilusão de que todos estão ganhando graças a aportes constantes de novas pessoas dispostas a investir. Só que os tomadores de empréstimo “saudáveis” logo se esgotaram. E a solução para manter a “bolha” inflada foi estender o subprime a qualquer um – pessoas sem emprego, sem comprovação de renda e sem qualquer bem para dar como garantia. Com os calotes que vieram na seqüência, perderam os bancos, os fundos de investimento e muito mais gente.

Efeito manada
Se o subprime não tinha relação direta com as bolsas nem com o Brasil, como fez o Ibovespa oscilar? A resposta é simples: em economia, há o que se chama “efeito manada”. Ao perceber que há algo “podre” no mercado, que pode gerar perdas ou lucros muito abaixo do esperado, um investidor deixa o mercado. Um outro nota o movimento e toma a mesma atitude. Assim, num efeito dominó, os preços das ações começam a despencar, porque há um aumento da oferta que não corresponde à procura – afinal, ninguém quer se arriscar numa crise. Isso aconteceu não apenas com os ativos que, direta ou indiretamente, poderiam estar envolvidos com o subprime (como ações de bancos, construtoras, empresas de material de construção etc.). O efeito foi generalizado, inclusive porque fundos e bancos foram à bancarrota. No Brasil, particularmente, houve também uma fuga de dólares – para sanar os prejuízos nos Estados Unidos, investidores estrangeiros com ações na Bolsa de Valores de São Paulo venderam seus papéis. Fora tudo isso, a desconfiança se espalhou: outros riscos poderiam estar sendo subestimados.

Hora de sair da bolsa? 
É impossível prever quando a oscilação na Bovespa vai acabar. Mas isso não quer dizer que todos devem vender suas ações e desistir para sempre do mercado financeiro. No Brasil, é recente a entrada de pessoas físicas nesse mercado e crises assim podem ressuscitar o falso mito de que este é um mundo só para entendidos e grandes jogadores. O que todos devem ter em mente é que, para garantir os rendimentos mais altos do que os demais investimentos, a bolsa é e sempre será um lugar de riscos e de especulações – ou seja, mais crises podem surgir.

Para quem está na dúvida quanto a tirar ou não o dinheiro da bolsa agora mesmo, vale a velha lição de que o momento de compra é na baixa e o de venda, na alta. No entanto, cada acionista deve avaliar individualmente seus objetivos: “meu limite de perda ainda é tolerável?”. Se a resposta for positiva, talvez o melhor seja amargar, agora, algumas quedas e apostar numa recuperação a longo prazo.

Para os novatos na bolsa, é possível tirar duas lições da crise do subprime. O excesso de otimismo sempre deve ser analisado com cautela. E mais: no mercado financeiro, informação vale ouro, mas não basta acompanhar só o que acontece no Brasil.

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